O que é psicoterapia, afinal?

   Por muitos anos, anos atrás, construiu-se um estereótipo preconceituoso de que psicoterapia era ou coisa para gente “doida” ou apenas uma conversa a mais na vida com o agravante de que se “jogava dinheiro fora batendo papo”. Com o tempo a psicoterapia foi tomando forma e aceitação social mais popular, inclusive, talvez graças à mídia e à figura quase onipresente dos especialistas dos sentimentos e das emoções humanas, psicoterapia chegou até ser moda e status. Hoje é comum vermos pessoas dizendo: “segundo meu terapeuta...” ou “vou levar isso pra minha terapia”. Pois é, foi-se a época que fazer psicoterapia era uma coisa vergonhosa e que quem a fazia o fazia de maneira furtiva, às escondidas. Aliás, psicoterapia no jargão popular foi abreviada para a expressão terapia. Assim, quando se diz que está fazendo terapia, está dizendo que se está fazendo uma psicoterapia ou – utilizando-se de termos mais próximos do meio acadêmico - se submetendo a um processo psicoterápico.

   Mas, o que é mesmo uma psicoterapia, afinal?

   Comecemos, pois, com a etimologia da palavra. Psicoterapia é a combinação de dois termos, a saber: terapia vem do grego ?e?ape?a (ou thaerapia) que significa tratamento e psico também do grego psychein. A origem grega da palavra psychein – que para muitos origina a palavra psy.khé ou psyché (alma) tem o sentido ou significado “borboleta”. E o por que do termo borboleta? Vejamos...

   Alguns estudiosos afirmam que o termo psicoterapia advém de Aristóteles a partir de seu livro Sobre As Almas onde o mesmo coloca a psicologia como um ramo da filosofia voltado ao estudo das motivações e das emoções humanas. A associação de psique com a borboleta deve-se a idéia de que a alma seria uma parte da Consciência Infinita que assim separada formaria uma larva e dela adentraria um corpo (casulo) de onde nasceria o ser humano que seria uma espécie de crisálida que ao término da vida se transformaria em uma borboleta. Assim, para Aristóteles, o campo de estudo da psicologia seria o ciclo de vida do ser humano enquanto corpo-alma. (da crisálida à borboleta).

   Desse modo, considerando psyché alma e thaerapia tratamento, a primeira vista poderíamos traduzir psicoterapia como tratamento da alma. Contudo, etimologicamente não é, pois tratamento é um meio e não um fim, isto é, se tratamento fosse um termo que se referisse ao objetivo aí sim psicoterapia seria tratamento da alma. Todavia, repetindo, tratamento é um termo que faz menção a um meio e não ao objetivo – razão pela qual, por exemplo, Hidroterapia significa tratamento através (ou por meio) da água e não tratamento da água. Isto posto, podemos então dizer que Psicoterapia etimologicamente é o tratamento através (ou por meio) da alma e não o tratamento da alma. E de que alma, afinal, estamos falando? Da alma do terapeuta (meio) e não da alma do paciente (finalidade). Psicoterapia, portanto, é o tratamento da alma do paciente (objetivo) através ou por meio da alma do terapeuta. Modernamente, concluindo, podemos afirmar que o termo terapia significa algum tipo de tratamento por meio de acompanhamento através de um clínico. A própria palavra clínica também vem do grego klinikê que, por sua vez, tem seu significado relacionado à cama. Ou seja, na etimologia do termo o clínico é aquele que visita e cuida do acamado (doente) – daí também a origem da palavra inclinar: se debruçar sobre alguém que acamado está sofrendo (por isso, quando curado, tem alta, isto é, levanta-se da cama).

   Mas, deixando de lado a origem das palavras, vamos enfocar Psicoterapia nos moldes como hoje modernamente a entendemos.

   Psicoterapia é um ramo da Psicologia Clínica e representa aplicações técnicas (métodos) que visam tratar, por meios psicológicos, de problemas ou sofrimentos de natureza emocional. O tratamento em questão, se aqui usarmos a definição do Wikipédia, se realizaria através de diferentes métodos, sendo características comuns o emprego da comunicação verbal e não-verbal e a atenção à relação entre cliente/paciente e psicoterapeuta. Usemos, entretanto, a definição clássica de Wolberg sobre psicoterapia:

   “psicoterapia é o tratamento, por meios psicológicos, de problemas de natureza emocional, no qual uma pessoa treinada deliberadamente estabelece um relacionamento profissional com o paciente, com o objetivo de remover, modificar ou retardar sintomas existentes, intervir em padrões perturbados do comportamento e promover o desenvolvimentoe crescimento positivo da personalidade”

   Enfim, seja qual for o conceito e a definição que utilizarmos para o que vem a ser psicoterapia sempre haveremos de nos deparar direta ou indiretamente com a idéia de que psicoterapia é um tratamento onde se utiliza de meios psicológicos para ajudar alguém que sofre psicologicamente. Isto tudo, por sua vez, quer dizer, em resumo, que uma pessoa treinada para tal (psicoterapeuta) oferece ajuda a uma outra pessoa (cliente/paciente) que a procura precisando de ajuda, seja para mitigar sofrimentos psíquicos (medo, angústia, tristeza, ansiedade, timidez, inquietação, sentimentos de solidão ou vazio existencial, etc), seja para auxiliá-lo a enfrentar problemas da vida, do cotidiano e das suas relações entre as pessoas e o mundo como um todo. Assim dizendo, psicoterapia é sempre uma relação de ajuda onde o psicoterapeuta oferece sua psiquê à psiquê de um outro (paciente/cliente) com vistas a ajudá-lo no que ele psiquicamente precisa ou solicita (aqui podemos, então, compreender porque etimologicamente psicoterapia representa o tratamento através da alma, como acima já falamos). O estado mental interrogativo e questionante do psicoterapeuta é oferecido à mente do cliente que, através da vincularidade e identificação, pode integrar a sua própria psiquê mantendo assim uma postura auto-observadora mais ampla sobre o que se passa consigo mesmo (interioridade) e sobre seu comportamento e leitura do mundo que o cerca.

   Como podem ser vários os meios psicológicos dispostos ao cliente/paciente, várias são, portanto, as técnicas de abordagem e suas metologicas. É por isto que existem centenas de técnicas psicoterápicas e outras tantas podem ainda ser criadas. Desse modo temos diversas psicoterapias, algumas mais conhecidas, outras menos. Temos, por exemplo, assim a psicanálise e as psicoterapia de base analítica, as psicoterapias de apoio, as cognitivas-comprtamentais, as gestalt-terapias, a psicoterapia centrada no cliente, as psicoterapia sistêmicas, o psicodrama, as psicoterapias bio-energéticas, as psicoterapia humanistas e as existenciais, as psicoterapias individuais ou grupais, as psicoterapia de casal e familiares, as psicoterapias construtivistas, as psicoterapias transpessoais, entre outras várias. Contudo, seja de que abordagem estamos falando, todas têm objetivos em comum: ajudar o cliente/paciente a mitigar seu sofrimento, se auto-conhecer, amadurecer psicologicamente e auxiliá-lo em seus ajustamentos frente aos problemas que enfrenta.

   Seja qual for, portanto, a metodologia empregada e a visão de homem (teoria) que professa o psicoteraeuta, a psicoterapia está assentada em uma relação interpessoal terapeuta-paciente. Esta relação é marcadamente uma relação intensa emocionalmente onde deve existir a confiabilidade do cliente/paciente frente à figura do psicoterapeuta e suas competências para que possa ela dar certo, isto é, alcançar os objetivos a que se propõe. Pelo lado do psicoterapeuta é necessário que haja a aceitação da pessoa humana que é o cliente/paciente e que haja respeito ao mesmo não obstante os sintomas ou problemas que este esteja apresentando.

   Outro fator terapêutico inerente à relação psicoterápica é que a psicoterapia oferece um espaço de aceitabilidade onde a expressividade emocional do cliente/paciente possa se manifestar sem censuras ou retaliamentos. As expressões das emoções e dos sentimentos, por sua vez, possibilitam por si mesmas uma espécie de sentimento de alívio, bem como um sentimento de melhor compreensão da própria pessoas, além de possibilitar também a oportunidade de se perceber novos cenários, novos caminhos e novas possibilidades.

   Podemos, pelo acima exposto, perceber que a psicoterapia possibilita ao cliente/paciente uma re-leitura de si mesmo e do mundo onde se acha inserido. No âmbito do presente artigo podemos afirmar que psicoterapia diálogo: diálogo de palavras, de silêncios, de corpos, de carências, diálogos de intersubjetividades e histórias a gerar novas histórias e significações. Segundo Ponciano Ribeiro (Teorias e Técnicas Psicoterápicas, Editora Vozes, 1986), é através da história do paciente que o psicoterapeuta vai com o mesmo descobrindo os focos de maior conflito e com isto conhecendo melhor a psicogênese do processo atualmente vivido pelo cliente. O instrumento (meio) da psicoterapia é, pois, sempre a comunicação verbal e não-verbal estebalecida entre os protagonistas da cena terapêutica (relação psicoterapeuta/paciente).

   Se o ser humano é um ser que fala e sendo psicoterapia um diálogo, o diálogo psicoterapêutico se diferencia dos demais diálogos sociais, pois o diálogo da relação psicoterapêutica é um diálogo dialético. Em outras palavras, em psicoterapia há um encontro entre duas subjetividades (ou mais de duas em se tratando de psicoterapias grupais, por exemplo) e nesta relação intersubjetiva a intrasubjetividade do paciente/cliente pode ser modificada pela força das influências mútuas em jogo no campo da intersubjetividade. Confuso? Então vamos nos fazer mais uma vez das palavras de Ponciano Ribeiro (op. cit.) quando o mesmo - ao afirmar que a psicoterapia em si não tem a finalidade de curar o cliente, mas dar a este meios para tratar de seus conflitos e desajustamentos (para que ele possa fazer suas próprias opções com mais liberdade e discernimento e caminhar sozinho) – nos ensina que “psicoterapia é um processo de tomada de posse de si próprio, no que concerne, sobretudo, às suas potencialidade”.

   Finalizando, psicoterapia não deve ser confundida como uma conversa social qualquer de ajuda (como a de entre-amigos, por exemplo), nem deve ser vista como um conselho quase do tipo paternal, mas sim como uma relação complexa onde interagem, no mínimo, dois psiquismos (psicoterapeuta-paciente) e nesta interatividade psíquica possibilita-se ao sujeito-cliente a utilização de novos recursos psíquicos para enfrentar seus problemas e sua postura com a vida, com o mundo, com as pessoas e consigo mesma, redifinindo-os de uma nova maneira e significância. O destino ótimo de qualquer psicoterapia é a mudança psíquica e atitudinal, e tal modificação básica se faz ao desenvolver um modo novo de pensar sobre si mesmo e seus problemas, modificando assim a equação adaptativa que até então regia sua vida.

   É como nos versos do poeta espanhol Antônio Machado: “Caminante, no hay camino/se hace camino al andar” (caminhante não há caminho/faz- o caminho ao andar). Pois é, em psicoterapia o psicoterapeuta ajuda o paciente/cliente a caminhar o seu caminhar. E o caminho que o paciente/cliente caminhar é sempre o seu próprio caminho, mas que ele o seja realizado com passos mais firmes e mais seguros, sabendo até aonde se quer e se pode chegar.

Voltar | Topo da Página