A pré-história do amor: raízes e origens do sentimento amoroso.

   “Encontro em minha vida milhares de corpos; desses milhares, posso desejar algumas centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro de que estou enamorado me designa a especialidade de meu desejo”. Com estas palavras Roland Barthes (2003, pág. 50) indaga-se por que se deseja alguém, por que se ama.

   O amor é tema da literatura, do cinema, da poesia, da filosofia, da psicologia e de tantos outros ramos do saber e das artes humanas. O amor é assunto de todos nós. Quem já não falou de amor? A questão é: sabemos verdadeiramente o significado desse sentimento que chamamos de amor e com o qual relacionamos à idéia de felicidade? Como nasce ele e quais seus motivos? O texto a seguir é apenas um breve ensaio sobre a psicologia do amor e a razão de nossas escolhas amorosas. O tema é vasto, complexo e talvez infindável e inesgotável. Aqui teremos somente algumas reflexões e estudos iniciais a respeito do mesmo: uma ligeira revisão sobre este afeto que está para a alma humana assim como o oxigênio está para o organismo.

   Desde os tempos míticos o homem se debruça sobre o tema. Os gregos da Antiguidade, por exemplo, representavam o amor através dos deuses Afrodite e Eros. Eros, filho de Afrodite com Ares, aquele que flechava os corações das pessoas tornando-as apaixonadas, ele mesmo certa vez também se apaixonou por Psique (alma). Após inúmeras peripécias divinas e sofrimentos, Eros se une em definitivo com Psique. Eros e o amor são assuntos do clássico livro O Banquete de Platão (1989). Nele encontramos, na fala de Aristófanes, o relato do mito da androgenia, segundo o qual inicialmente os seres humanos eram seres esféricos, completos e perfeitos. De tão perfeitos que eram os humanos tentaram desafiar os deuses do Olimpo, aspirando chegar à sua morada. Por tal ousadia Zeus os divide, cortando-os em duas metades: um lado masculino e outro feminino (é bem possível residir daí a expressão cara-metade), e os condenou a vagar pelo mundo à procura de sua parte perdida. Tal mito significa, comenta Aranha e Martins (1993), o anseio do ser humano pela totalidade, representada pelo encontro do “par perfeito”. Vem do comentado livro a seguinte frase de Sócrates a respeito de Eros: “um anelo de qualquer coisa que não se tem e se deseja ter”.

   Já em meados do período medieval, inúmeras transformações sócio-culturais começaram a ocorrer: o aumento das populações e suas concentrações em cidades, o aperfeiçoamento da agricultura e a intensificação comercial, o surgimento de associação de artesãos e trabalhadores, a criação de universidades, entre outras. A face e a ordem do mundo feudal davam início a algo novo. Em meio a tudo isso a literatura e a poesia da época celebravam o ideal do amor romântico capaz de revolucionar a alma das pessoas. A convenção do casamento por arranjo começou dar vez à idéia do casamento por escolha e por atração sensual. O amor, sentimento sublime, passou então a ser visto, principalmente através de canções e trovas de poetas e menestréis, como algo que redime. O amor é agora o sentimento que nos faz feliz – assim cantam os líricos.

   Com o advento da modernidade e a transformação do pensamento e do saber, o ser humano torna-se cada vez mais a medida de si mesmo e das coisas. Segundo Tarnas (2002), com a ênfase à pertinência pessoal das idéias e ao individualismo, “a verdade passou a ser sentida pelo ego”. Com o desmoronamento da cosmografia aristotélica não eram mais os deuses a conduzir o destino do homem, mas sim este senhor de sua própria sorte. As emoções e os desejos humanos não eram mais resultado de decisões e jogos divinos; e o amor e a escolha amorosa, então, passaram a ser decisão de cada um.

   Mas, talvez, as coisas não sejam bem assim. Talvez os “deuses” não tenham morrido, isto é, as forças que conduzem o homem e suas escolhas hoje podem não mais ser vistas como algo divino e externo, contudo parece residir no mesmo forças que lhe são internas e ocultas, e que movimentam e motivam a conduta humana. Se a vontade humana, pois, não vem de cima, parece vir então de baixo. Coloquemos isto em outras palavras. Sabemos que Copérnico retirou a terra do centro do universo, assim como Darwin acabou com a ilusão antropocêntrica ao reduzir o homem a sua natureza animal. Já Freud ao iluminar as profundezas arqueológicas da psique revelou que não é a razão propriamente dita a conduzir no comportamento humano. A Era Moderna, assim, inaugura uma nova visão do homem: menos sublime e inseparado da Natureza.

   Desde a mitologia, portanto, vemos que o amor é intrinsecamente vinculado ao desejo. Desejar é procurar o objeto amado que nos completará. E assim, amar é sair de si mesmo ao encontro, na intersubjetividade, com o outro. Contudo, não pensemos o amor apenas como um desejo ou um impulso para alcançar o outro. Muito mais do que isso: na relação amorosa buscamos ser reconhecidos pelo outro. Nas palavras de Aranha e Martins (op. cit.), “o amante não deseja se apropriar de uma coisa: deseja capturar a consciência do outro” (grifos das autoras). Neste sentido, o amor aspira reciprocidade, isto é, desejamos o desejo do outro.

   Embora a questão ora levantada seja da ordem da subjetividade, em princípio sejamos o mais objetivo possível, ou seja, ninguém nasce amando. Mesmo sendo para a psique humana uma necessidade inescapável, o amor é um sentimento que vai se construindo através da interatividade da mente com o mundo e os outros, mais precisamente os primeiros e principais cuidadores (os pais ou quem em seu lugar os substitui).

   No tocante à questão do amor em seus aspectos e raízes primárias, tomemos como ponto de partida às descobertas de Freud e da Psicanálise, para quem o que o ser humano pensa sobre si e sobre o mundo são imposições regidas por fatores irracionais, isto é, não controlados pela razão e sem plena consciência dos mesmos. Freud, assim como Darwin, Marx, Kant e tantos outros descortinou-nos a seguinte constatação: o que se pensa, como pensamos e para que pensamos . Assim, nossas condutas são determinadas por uma multiplicidade de variáveis e fatores que nos estruturam, tais como a cultura, a classe social, a biologia, a história, a ideologia e o inconsciente. Dessa maneira, também o amor e seus desejos. E como o foco do presente texto são os primórdios do sentimento amoroso e sua profundidade emocional, antes de qualquer idéia prometéica, isto é, antes de tê-lo como promessa de felicidade e bem-estar, passemos a pensá-lo em suas motivações e contradições internas a partir do indivíduo como ele chega ao mundo e suas primeiras e inevitáveis interrelacionalidades.

   Ao nascer e até mesmo antes na vida intra-uterina, a mente humana não apresenta ainda condições de se perceber diferenciada do mundo que lhe é externo. Não há na mente, em seus instantes primevos, noção de eu e de não-eu. Seu início é um imenso amálgama onde o mundo interno e externo se confundem como um todo indissolúvel. Não existe, pois, para a mente humana em estado bruto percepção do objeto como objeto. O objeto é como se fosse uma prolongação de si mesmo e por isso não falamos ainda de objeto propriamente dito (originalmente a mente é anobjetal). Não é por menos que Margaret Mahler tão bem enfatizou ser o nascimento psicológico posterior ao biológico. A mente humana vem ao mundo, além da vida intra-uterina, portanto, de maneira amúndica. O mundo é algo a ser descoberto e explorado pela psique a partir do neonato e de sua condição neotênica. Em outras palavras, o recém nascido não possui a mínima condição de sobrevivência por si próprio. Embora dentro de sua ilusão narcísica de ser grandioso e onipotente, que melhor explanaremos adiante, o bebê é completamente dependente do outro que lhe cuida – este outro que ele ainda irá conhecer como diferenciado e separado dele, enfim, irá conhecer realmente como um outro.

   A linguagem psicodinâmica utiliza-se frequentemente do termo objeto para designar o outro em relação ao sujeito. Manteremos o termo que longe de coisificar os demais frente ao indivíduo, pelo contrário, tem a finalidade de expor sobre aquele a quem se dirigem nossos impulsos, afetos e ações. Sintaticamente, uma oração é composta de sujeito (quem empreende a ação), verbo (ação) e objeto (quem recebe ou sofre a ação). Assim, as pessoas que nos cercam são objetos aos quais dirigimos nossos sentimentos e ações. Colocado dessa forma há de se diferenciar objeto interno de objeto externo. O primeiro é diretamente dependente da experiência que se tem com o segundo. Ou, como ensina Hinshelwood (1992), os objetos internos são espelhos da realidade. Isto não quer dizer que o objeto internalizado, agora parte do ego e do mundo interno da pessoa, seja cópia exata e fidedigna do objeto externo, afinal a “leitura” que fazemos do mundo externo e da realidade é sempre contaminada por nossas emoções e fantasias. Uma relação com o objeto externo, portanto, não é em si a representação da relação com outra pessoa, mas sim como esta é experenciada, sentida.

   O nascimento biológico antecede o nascimento psicológico. Dentro do modelo de desenvolvimento proposto por vários pesquisadores e autores da psicologia infantil, entre eles Margaret Mahler, tal afirmação vem destacar que a mente humana em seus primórdios não reconhece a existência de um mundo externo. Este período primevo e originário é denominado por Mahler (1975) como um período autista e posteriormente simbiótico, visto que não há para a psique em estado bruto e imaturo um reconhecimento e consciência da separação verificada entre ela enquanto feto e o corpo materno, separação esta concretizada através do corte do cordão umbilical. Ao sair do ventre materno o bebê vive psicologicamente uma continuação da vida intra-uterina. Só mais adiante é que gradualmente vai a mente humana começando a perceber não só o mundo que a cerca, mas seus próprios limites corporais. Assim, falta ao neonato inicialmente a noção de si-mesmo e de sua identidade, que se originará de seus próprios contatos com o meio e a realidade. Tal encontro subjetivo se dá através tanto de experiências físicas (diretas) quanto através de mediadores simbólicos (indiretos), instrumentos estes herdados de sua relação com os representantes da cultura e do social (os pais e/ou substitutos).

   Utilizemos aqui a célebre afirmativa de William James, no tocante a se pensar como deve ser a experiência psíquica de um bebê: uma grande confusão, florescente e cheia de zumbidos. Entre tantas teorias e possibilidades de como funciona a mente humana nos seus instantes primitivos, uma coisa nos parece indubitável: um bebê pequeno não tem consciência de si como um eu, isto é, como um eu que se reconhece, se interage e se afirma como um eu ou como um mim. Falta-lhe uma autoconsciência de si próprio como alguém que se diferencia do seu meio, embora efetue intemcâmbios constantemente com o mesmo.

   A mente em estado bruto e primitivo é oca de objetos. Não lhe existe nada além de si, sendo ela para ela mesma em sua totalidade um imenso, ilimitado e único solitário self grandioso, como diz Kohut (1988). Contudo, não é assim a realidade dos fatos e das coisas. A mente, o corpo e o bebê como um todo, não é auto-suficiente, completo, perfeito e onipotente, pelo contrário, precisa e precisará por muito tempo, principalmente pela condição humana de ser neotênica, de um outro que lhe será um cuidador e lhe dará condições que lhe faltam de sobrevivência física e psicológica, razão pela qual na nossa infância e meninice somos chamados de crianças – aquele que é cria e é criado. Nessas condições, portanto, cria-se o homem do amanhã, homem este que saberá a poderá melhor ou não amar e ser amado.

   O estado inicial de funcionamento psíquico é um estado puramente ilusório, visto que, embora a mente não perceba diferenciação entre si e o outro e sua conseqüente dependência, é a criança nova bastante e absolutamente dependente de quem lhe cuida: o objeto chamado funcionalmente de materno. Tal estado ilusório e originário é, por muitos, chamado de narcísico, termo este retirado da mitologia grega ao falar da pessoa que não dirige seu desejo amoroso para ninguém, a não ser a si mesmo.

   O momento narcísico é o momento originário e fundador do psiquismo humano, afinal não há ainda para o recém-nascido nenhuma percepção clara de objeto a quem possa dirigir sua libido e atenção. Embora entenda que o amor é um afeto que não se nasce com ele, porém se desenvolve como conseqüência de inúmeras e incontáveis experiências e vivências interpessoais, toda a energia psíquica é primariamente voltada a si mesma, somente posteriormente, com a percepção da diferenciação do eu e não-eu e da experiência real do objeto, é que ela também se volta ao outro. Freud (1974) denominou esses dois instantes desenvolvimentais do psiquismo como libido dirigida ao ego e libido dirigida ao objeto. Ledo engano, entretanto, quem considerar que a partir da consciência do outro e da libido a este dirigida supera-se de todo o narcisismo. O funcionamento narcísico da mente prematura sempre será nossa base e solo de onde edificamos nosso ser e nossa personalidade. Como afirma Kohut (1988), as necessidades narcísicas persistem por toda a vida, acompanhando o desenvolvimento no âmbito do amor objetal.

   Utilizemos dos construtos de Kohut (op. cit.) para melhor então compreender a questão aqui proposta. O ser humano sai do útero materno ainda como se estivesse psicologicamente dentro dele, isto é, acreditando-se único em um mundo que sequer conhece existir. A mente se acredita tudo (self grandioso), porém não é. A ilusão narcisista da perfeição, completude e auto-suficiência não se sustenta ao longo da vida pelo Teste de Realidade. Haverá inevitáveis e incontáveis instantes de frustrações, como no exemplo da fome em que ela será levada à prova de não ser auto-suficiente, completa e perfeita. Ela pode pensar que produz aquilo (alimento) que a sacia, mas nem sempre o seio que a alimenta está ali: pronto e imediato a lhe atender no exato instante que ela quer. O psiquismo gradualmente passa a perceber, primeiramente de maneira tênue e nebulosa, e mais adiante de maneira claramente perceptível, a existência não somente do seio que a alimenta, mas também de que este seio não é um prolongamento de si e, assim, com ele o bebê se relaciona e depende absolutamente para o atingimento de suas necessidades básicas.

   A mente rudimentar é levada a de certa forma ter de abandonar a ilusão narcisista de que falávamos acima. Todavia, é como se ela lutasse em preservar o ideal da perfeição, completude e auto-suficiência. Se a realidade se impõe sobre a ilusão - ou seja, percebendo que não é onipotente e plena, pelo contrário é até impotente frente à vida em seus primeiros instantes, dependendo desse outro que vai descobrindo para sobreviver e se ver atendido em suas várias demandas, impulsos e desejos – a mente primitiva, por sua vez, luta em conservar a ilusão narcísica. Como o faz, propõe Kohut, é transformando o outro que agora ela percebe e interage como se ele é que fosse poderoso. Este objeto poderoso (objeto do self) na sua relação com o self (a própria mente em desenvolvimento e formação) é “visto” pelo psiquismo do bebê como se estabelecesse com ele o par perfeito. Tal “leitura” e “visão” de completude levam à crença subjetiva, emocional e sem palavras, de uma relação simbiótica, uma simbiose normal nas palavras de Mahler (op. cit.), visto que todos nós passamos por ela.

   Dentro dessa simbiose emocional-afetiva tem-se a falsa percepção de que o outro – agora reconhecido como existente – é aquele que nos completa (lembremos do mito grego da androgenia mencionado no início do presente ensaio). Então, neste sentido, o outro é visto como o objeto ideal. Entretanto também tal ilusão de colorido narcisista não se sustenta por longo tempo: o outro não é o objeto ideal. Se assim o fosse, ele existiria apenas e tão somente para suprir todas nossas demandas, anseios, necessidades, carências, sonhos e desejos. Sabemos que o outro – aqui referido com o termo objeto – também é um sujeito de sonhos e de próprios anseios, necessidades, carências e desejos. Por mais que o outro (objeto materno) ame aquele a quem cuida (bebê) ele não ama única e exclusivamente a criança. A sua vida (não patologicamente falando) não gira apenas em torno da criança. A díade relacional imaginariamente perfeita criada pelas ilusões da mente infantil passa a ser vista como tríade (o objeto o ama, mas também ama outras pessoas). Decididamente, o objeto funcionalmente materno não é perfeito, visto que ele é sujeito.

   Para Kohut (1988) o psiquismo tem necessidades narcísicas de grandiosidades e idealizações. Tais necessidades persistem por toda a vida. Trazemos ao longo de nossas existências os resquícios da grandiosidade e da idealização. É como se estivéssemos fadado a continuamente buscar emocionalmente nos outros respostas empáticas, a fim de manter a nossa auto-estima. O clima psicológico do amor enquanto paixão demonstra isso.

   Individualizar-se é separar-se emocionalmente do objeto primevo. Quando mencionamos objeto primevo não se quer dizer o cuidador real. Falamos do objeto narcisicamente investido: ideal e complementar. Acima citávamos o mito grego da divisão do ser humano, perfeito e esférico em duas metades. O encontro, aliás, o reencontro com a cara metade vem atender o grande anseio psicologicamente humano da plenitude a grandiosidade. Desejo vem do latim Desiderium, que significa perda (Chauí, 1990). Assim, busca o homem em sua existência suprir suas faltas e suas incompletudes no (re)encontrar do objeto idealizado e perdido.

   Recapitulemos a questão. A capacidade de amar é lentamente desenvolvida já no primeiro ano de vida. Inicia-se como uma resposta afetiva ao objeto, e para isso o mesmo é preciso ser reconhecido. Estudiosos da primeira infância consideram que já desde o nascimento se é possível observar sinais de emoções nos bebês, tais como desconforto, interesse e atenção. Bebês são receptivos à estimulação, embora não haja para eles ainda a mínima percepção da existência e presença do objeto estimulador.

   Nas chamadas fase autista e simbiótica (Mahler, 1975) o que há é uma indiferenciada mistura. Como comenta Anton (1998), o bem-estar que tal mistura proporciona é base para a aprendizagem do amor. Com o tempo o “relógio biológico da maturação”, nos dizeres de Papalia e Olds (2000) vai possibilitando ao bebê entrar na fase da diferenciação. Nesta passagem entre um estado amúndico e anobjetal para a descoberta do mundo externo e seus objetos, no pressentimento primitivo da existência do objeto, a energia psíquica (libido) antes voltada como se só para o ego da pessoa é investida cada vez mais no objeto e na relação com ele. Daí a importância fundamental para a mente humana das respostas empáticas do objeto cuidador para com as demandas de natureza egoístas e narcísicas da criança pequena. A capacidade de amar se desenvolve, portanto, a partir das satisfações das necessidades básicas. Constrói-se assim a confiança básica que vai permitir ao ser humano no prosseguimento de sua vida formar e manter relacionamentos íntimos. E, dessa maneira, caminha a Humanidade: dos primeiros vínculos aos vínculos posteriores.

   A capacidade de amar é uma conquista, não uma herança – afirma Pelosi (2003). Desabrochamos e saímos da simbiose para encontrar o mundo e sua diversidade e complexidade. Trazemos, pois, dos tempos imemoriais da primeira infância (ou melhor, dos tempos em que nossa memória era puramente emocional) os traços e as marcas indeléveis do nosso passado com os objetos arcaicos. Esta é resumidamente a pré-história do amor: uma história que não se descreve com palavras, mas que se encontra inscrita na maneira jovem ou adulta de amar, de escolher o objeto amoroso e no seu relacionamento com o mesmo.

   Freud propôs que a libido do ego converte-se em catexia (investimento psíquico) objetal. Para que isso ocorra, funda-se no psiquismo humano o que se convencionou chamar de ego ideal. O ego ideal é para o sujeito uma espécie de objeto de amor que ocupa o lugar que antes era do próprio ego narcísico (Durand, 2003). Como o crescimento coloca o sujeito frente aos seus fracassos, frustrações e derrotas, a idéia de perfeição da mente infantil não pode ser sustentada. Contudo, forma-se no núcleo do psiquismo de todo o ser humano um ego ideal que é como se fosse uma maneira de se recuperar a perfeição perdida (mais uma vez remetemos ao mito da androgenia). Dessa forma, teoricamente falando, o ego ideal é herdeiro do narcisismo primário e seu lugar na mente humana (se é que existe lugar psíquico) é no imaginário do mundo das ilusões.

   Interessante a lucidez com que escreve Durand (op. cit. Pág. 91):

“os vínculos de hoje sofrem e nutrem-se da reminiscência do que foi imaginado e, retrospectivamente, colocado nas origens da instituição da maneira como nós a idealizamos. A reminiscência é uma das forças que cria o futuro: se o desejo aponta para o futuro, tem como fonte o passado”.

   Sim, o ser humano é movido por inúmeras forças que não lhe são consciente. De nossa memória “esquecida” buscamos no objeto conscientemente eleito como objeto amoroso um quê de nosso ontem. Passado e presente, realidade e fantasias, se interrelacionam sem nos apercebermos em qualquer relacionamento amoroso de nossas vidas. Como diz Anton (op. cit.), os objetos presentes em nossa atualidade evocam memórias distantes e disparam emoções básicas que contribuem e criam os cenários em que vivemos nossas histórias de paixão e amor.

   Não é de Freud ou de outro psicanalista a expressão: “aquele que recorda de uma coisa com que se deleitou deseja possuí-la nas mesmas circunstâncias em que na primeira vez se deleitou”. É do filósofo Espinosa em seu terceiro livro da Ética (apud Chaui, op. cit.). Na teoria do desejo freudiano também se percebe esse enlace entre desejo e memória. Psicanaliticamente falando o desejo anseia realizar-se pela reprodução alucinatória das percepções antigas nas percepções presentes que substitutivamente se tornam sinais para a satisfação desejante.

   Hobbes (1974) é outro que define desejo como relacionado à ausência. Para ele desejo e amor são a mesma coisa, exceto que desejo significa a ausência do objeto e amor a presença do mesmo. Nestes termos pode-se dizer que a marca do desejo é a falta e a carência. Vejamos o que escreve Marilena Chauí (op. cit., pág. 25):

“Seja como desejo de reconhecimento, seja como desejo de plenitude e repouso, o desejo institui o campo das relações intersubjetivas, os laços de amor e ódio e só se efetua pela mediação de uma outra subjetividade. Forma de nossa relação originária com o outro, o desejo é relação peculiar porque, afinal, não desejamos propriamente o outro, mas desejamos ser para ele objeto de desejo. Desejamos ser desejados, donde a célebre definição do desejo: o desejo é desejo do desejo do outro”.

   Chegamos ao sentimento de paixão. Paixão, outra palavra de origem latina (Pathos = sofrimento), que pode ser definida como um amor exagerado, intenso e irreal, uma revolução que acomete a pessoa apaixonada. Uma doença do amor, não porque se está patologicamente enfermo, mas sim por remete ao impossível: o reencontro com o objeto imaginariamente perdido. Frisamos imaginariamente porque de fato nunca tivemos realmente o encontro com o objeto ideal e complementar. Jamais tivemos de verdade uma relação perfeita, porém a mente assim se iludiu em suas fantasias narcísicas e originárias.

   Quando alguém se enamora e se apaixona é como se estivesse dizendo haver finalmente encontrado sua cara metade. As pessoas, destaca ANTON (1998), permanentemente entre si emitem microssinais e captam microssinais, embora isso se passe em grande parte não ao nível da consciência. Por razões que só a história pessoal de cada um explica, em meio a uma multidão de outros um se salienta como aquele com quem se será feliz. É o amor se manifestando de maneira simples e ingênua, visto que a felicidade em uma relação é construção contínua e muito se deve não somente à paixão, mas também a intimidade e o compromisso, compromisso este, definido por Sternberg (apud Papalia e Olds, 2000) como a decisão de amar e ficar com o ser amado. O amor enquanto paixão, com suas características infantis e vorazes, fala do encontro com o objeto ideal. O amor maduro, por sua vez, fala da tolerância em relação às diferenças, defeitos e imperfeitudes.

   O amor do apaixonado é um amor “louco” do tipo não sei viver sem você. Já o amor maduro, ou amor propriamente dito, liberto das ilusões simbióticas, é um amor que diz: sei viver sem você, mas quero viver com você. Esta é a verdadeira escolha, embora possamos até considerar que nenhuma escolha é tão livre de influências assim. O amor que se reconhece como tal, ao invés do amor-paixão que se acredita pleno e eterno, sabe que a eternidade em termos relacionais não existe: tudo finda. Por isso o amor verdadeiramente amor é aquele que se sabe permanentemente construtor, ou seja, não basta apenas encontrar, mas também conservar.

   O amor maduro, portanto, é um laço que nos une ao outro sem os excessos do romantismo barato e hollywoodiano. O mesmo romantismo tão criticado pelo poeta Fernando Pessoa (1999), como nessas suas seguintes palavras:

“O mal todo do romantismo é a confusão entre o que nos é preciso e o que desejamos. Todos nós precisamos das coisas indispensáveis à vida, à sua conservação e ao seu continuamento; todos nós desejamos uma vida mais perfeita,uma felicidade completa, a realidade dos nossos sonhos. É humano querer o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter” (pág. 86).

   Porém isto não quer dizer que não amemos tomando vinhos à luz de velas. Amar tem também estes necessários momentos de sonhos e apaixonamentos. Mas o amar é uma longa estrada e seus percalços, requer envolvimento, sacrifícios, afetuosidades, vínculo e confiança. O amor é sempre uma história e somos nós, seres humanos, carentes e amantes, autores e personagens desta história que faz parte da fascinante aventura humana.

   Amor requer cultivo, atenção, respeito e desejo. A natureza tem, portanto, seu semeio e desenvolvimento a partir dos nossos primeiros laços afetivos, isto é, no seio da primeira vivência social que é a família. Não basta, porém, somente a existência do sentimento de amor dos pais (os substitutos funcionais) em relação aos seus pequenos e iniciantes filhos. Faz-se igualmente necessário o gesto amoroso. Emoção sem ação é inócua, podendo gerar problemas pessoais de afastamento neurótico ou psicótico do mundo (Stocker, 2002).

   Assim sendo, pelo acima exposto, não seria de todo o modo equivocado afirmar que aqueles que amam autenticamente foram “autorizados” a amar a partir e desde a sua meninice. Por formamos, cada um de nós, o nosso Eu através da relação com um Outro, temos como destino o vínculo (todo o sujeito é e existe vinculado). Ao longo da vida procuramos um parceiro (ou novo parceiro) para a nossa existência. Uma vida sem um outro afetivo e respondante é uma vida desértica e fria. Da mesma forma que o corpo de um infante necessita de leite a sua sobrevivência, psicologicamente necessitamos analogamente de amor. O amor – este conjunto de sentimentos e afetos ternos – nos é vital e oxigenante. Se hoje, adultos, vivemos histórias de amor é porque em período ancestral a nossa consciência tivemos uma pré-história fundante da maneira como aprendemos a modular e manejar nossos tantos e muitas vezes conflituosos afetos.

   O amor tem suas origens e seus mistérios. Teóricos podemos refletir o amor a sua distância, contudo amantes cabe-nos vivê-lo em nossas plenitudes falhas e inquestionantes. Amando de pouca valia nos cabe perguntar o por quê. O que se necessita é aproveitá-lo, cuidando com zelo, atenção, ternura e carinho o objeto amado em sua mais imperfeita plenitude e diferenças, assim como devemos, queremos e podemos ser amados. Ou como canta o poeta Pablo Neruda:

O que tens que temos,
que nos passa?
Ai, nosso amor é uma corda dura
que nos amarra e fere
e se queremos
deixar nossa ferida,
separar-nos,
nos faz um novo nó e nos condena
a nos sangrar e a juntos nos queimar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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DURAND, M., Do nascimento ao amor objetal, in Grupos e configurações vinculares, Fernandes W.J.m Svartman, B. e Fernandes, B.S. et al, Porto Alegre, Artmed, 2003.

FREUD, S., Sobre o narcisismo: uma introdução, Edição Standart das Obras Completas de Sigmund Freud, Vol. 14, Rio de Janeiro, Editora Imago, 1974.

HINSHELWOOD, R.D., Dicionário do pensamento kleiniano, Porto Alegre, Artes Médicas, 1992.

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KOHUT, H., Psicologia do self e a cultura humana, Porto Alegre, Artes Médicas, 1988.

MAHLER, M. S., PINE F. e BERGMAN, A., O Nascimento psicológico da criança: simbiose e individuação, Rio de Janeiro, Zahar, 1975.

PAPALIA, D.E. e OLDS, S.W., Desenvolvimento humano, 7.ed., Porto Alegre, Artes Médicas, 2000.

PELOSI, R.M., A introjeção e projeção dos objetos: posições kleinianas e defesas maníacas – conhecimento, in Grupos e configurações vinculares, Fernandes W.J.m Svartman, B. e Fernandes, B.S. et al, Porto Alegre, Artmed, 2003.

PESSOA, F., O livro do desassossego, São Paulo, Companhia das Letras, 1999.



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