Se há certas confusões por parte da chamada Psicologia Profunda com certeza uma delas é entre Self e Ego. Reforço a tal mistura também se dá na utilização de tais termos no senso comum, isto é, Ego transpôs o âmbito da Psicanálise e Academia e tomou às ruas com o sentido análogo ao de “eu” (como se diz por aí: “meu ego”), enquanto que Self se popularizou mais por ser parte da expressão “self-service” dos inúmeros fast foods da vida. Então, faz-se de logo necessário iniciarmos o tema diferenciando ambos os termos.
EGO, palavra latina que significa Eu, tomou em Freud o contorno conceitual de instância psíquica (parte da mente que lida com a realidade, bem como parte da mente que para tal utiliza-se inconscientemente dos mecanismos de defesa), que se diferencia do ID e do SUPERGO que, por sua vez, constituem o aparelho psíquico (funcionamento mental) em sua forma estrutural (segunda tópica do pensamento freudiano). Já SELF é uma palavra da língua inglesa que significa o si mesmo ou a própria pessoa, o eu mesmo (my self). Podemos dizer, portanto, dentro dessa perspectiva, que se o Ego interage com outras instâncias psíquicas (Id e Superego), o Self é quem interage com os objetos (pessoas).
Pelo acima exposto podemos de já observar uma clara diferenciação entre Ego e Self. Como diz, por exemplo, Hinshelwood em seu Dicionário do Pensamento Kleiniano (Ed. Artes Médicas, 2002): ''se o 'ego' representa uma parte da estrutura da mente, obviamente descrita, o self tende a representar o sujeito em suas próprias fantasias, descritas a partir de um ponto de vista subjetivo”. Outro autor que nos ajuda a discernir melhor Self de Ego é Winnicott para quem o self não é o ego, mas a pessoa que somos e que é somente o eu que somos e que possui uma totalidade baseada e formada no processo maturativo.
Assim sendo, para o desenvolvimento do presente artigo, coloco o conceito de Self como uma representação mental da pessoa (noção de eu) ou se preferirem como uma representação mental do ego dentro da própria mente, mas não uma representação psíquica tão somente cognitiva e sim uma representação que se constrói e se faz através da subjetividade emocional processada no desenvolvimento da pessoa e da personalidade de cada um (neste sentido as raízes de quem somos é sempre inconsciente).
Contudo seria por demais reducionista considerarmos a representação do si mesmo de cada um como algo somente egóico no sentido de um eu apenas individual e tão somente, afinal o surgimento de uma pessoa dentro da mente (noção de eu, de si mesmo) se faz das suas experiências vivenciais com o mundo circundante. Em outras palavras o Self é fenomênico, ou como dizia Carl Rogers todo o indivíduo vive em um mundo continuamente cambiante de experiências das quais ele é o centro. O Self, portanto, dessa maneira é visto como um centro pessoal de um campo fenomenológico/experencial que, por sua vez, é igualmente objetal se agora utilizarmos do jargão da Psicanálise como assim o farei a partir de então. O Self não pode ser pensado separado do seu mundo em que ele se sente e se pensa central. O Self de qualquer um ser humano somente pode ser gerado através dos encontros interpessoais e intersubjetivos, isto é, o Self é constituído no se deparar com outros selfs, com a cultura e com a história do encontro humano.
Em resumo, pois, podemos afirmar que o Self, enquanto representação intrapsíquica do indivíduo,é conceitualizado como uma experiência subjetiva da própria pessoa. Self é assim representação, representação psíquica do Eu de todos nós: a nossa auta-imagem (consciente e inconsciente). É por meio do Self que buscamos relacionamentos com as demais pessoas e é ele ainda produto da integração com essas mesmas pessoas (objetos).
Mas, afinal, o que quer dizer isto tudo? Vamos, pois, partir do princípio, isto é, da construção na mente de um self, seu desenvolvimento, suas vicissitudes e idiossincrasias.
Embora biblicamente possamos dizer que no princípio era o verbo (aqui descontextualizado do significado bíblico), para a mente humana em seus primórdios e origem no princípio não havia verbo (palavra, símbolos), mas apenas uma enorme e infindável grande confusão, florescente e cheia de zumbidos, como dizia William James. A mente humana em sua forma natural e originária é sensório-motor (Piaget).
Como já exposto em anterior artigo nosso (Arquitetura da Alma), a mente primeva (a de um bebê (recém nascido) não tem consciência de si como em eu, isto é, como um eu que se reconhece, se interage e se afirma como um eu ou como um mim. Falta-lhe uma autoconsciência de si próprio como alguém que se diferencia do seu meio, embora intercambei constantemente com o mesmo. Esta mesma mente, que ainda não consegue se diferenciar entre um eu (dentro de si) e um não-eu (fora de si), igualmente não se encontra ainda capaz de distinguir os estímulos que vêm de dentro dele dos estímulos que vêm de fora, o desenvolvimento do ego a partir do sentir do seu corpo se faz pari passu com o desenvolvimento das funções psíquicas do ego, tais como percepção sensorial, memória e habilidade motora.
O bebê nasce, vem ao mundo extra-uterino, mas a mente demora a nascer (o nascimento biológico antecede ao nascimento psicológico, nos dizeres de Magaret Mahler). A psiquê é imatura e carece ela primariamente de perceber que algo existe fora e além de si. O nascimento biológico traz ao corpo o contraste entre o meio ambiente em que ele vivia antes (ventre materno) e o de agora (após corte do cordão umbilical). Novas e inusitadas experiências vai passar o infante. E no psiquismo humano (até então autista a qualquer objeto e mundo) haverá de surgir um Self. Contudo incapacitado em sua origem de lidar com os estímulos e integrá-los e integrar-se (para Winnicott somos no início amplamente desintegrados e apersonalizados), quem nos propiciará nossas primeiras experiência integrativas é o objeto cuidador (mãe). É desse modo que podemos admitir, como diz Gilberto Safra em seu livro A Face Estética do Self (Ed. Idéias e Letras, 2005), que a presença da mãe é o primeiro self da criança, pois no início o que temos para a mente são registros sensoriais fragmentados que vão aos poucos estabelecendo uma organização no encontro do corpo do bebê com o corpo da mãe (objeto cuidador). As experiências organizam-se, como diz Gilberto Safra, em formas sensoriais de sons, calor, tato, ritmos, motilidades, entre outras, e tais formas serão significadas pelas diferentes qualidades afetivas envolvidas no encontro entre mãe e seu bebê (entre a mente do cuidador e a mente infantil primária). E é neste caleidoscópio de sensações várias que criança mentalmente vai começando a ter um corpo, um corpo que psiquicamente é construído pela presença de um outro corpo e seus desejos. Remeto aqui as palavras de Safra (op. cit.): “não é um corpo coisa, mas torna-se um corpo humano: é o soma com pegadas da passagem de alguém devotado”.
Destarte, podemos observar que o objeto cuidador (função materna) é antes de tudo um objeto relacional. E assim entramos agora no âmbito daquilo que conhecemos como Psicologia do Self. Todavia, antes de adentrarmos na Psicologia do Self propriamente dita, podemos fazer menção a idéia winnicottiana de que a mãe é o primeiro espelho da vida de um ser humano, ou mais precisamente, começamos a nos ver através e por meio do rosto de nossas mães (ou como elas nos vêem, nos sentem e nos idealiza). Recordemos a imagem proposta por Winnicott: a da mãe que olha para seu bebê que segura nos braços e este ao contemplar a face da mãe se encontra ali. Contundo a criança pequena que não encontra a si mesma na face da mãe, mas sim a necessidade desta, ficará – como escreve Alice Miller (O Drama da Criança Bem Dotada, Summus Editorial, 1997) “sem seu espelho, que procurará em vão por toda sua vida”.
Vemos acima a importância dada aos relacionamentos externos, mais notadamente com a mãe ou quem a substitui funcionalmente. Para a Psicologia do Self o ser humano, criança ou adulto, tem sempre necessidade de respostas empáticas das outras pessoas e por meio delas mentem sem senso de bem-estar e sua auto-estima. É por esta razão que se diz que a Psicologia do Self é fundamentalmente uma psicologia bipessoal ou uma psicologia de objetivos do Self como refere Gabbard (Psiquiatria Psicodinâmica, Artmed, 1998).
A mente originária (funcionamento psíquico) embora imatura ao início tende assim como o bebê como um todo, ao desenvolvimento. Tais condições prévias, salvo comprometimentos congênitos ou inatos, deverão encontrar no ambiente psico-emocional e afetivo que lhe cerca e mais precisamente na mãe (função materna) um espécie de suporte (holding) que possibilita o desenvolvimento saudável dessas mesma condições prévias. Ou como diz Winnicott, o bebê nasce provido de uma tendência para o desenvolvimento e a tarefa da mãe é oferecer um suporte adequado para que as condições inatas alcancem um desenvolvimento ótimo. Margaret Mahler, pediatra e psicanalista, chega a nos propor a concepção da existência de uma “dotação genética” que impulsiona o ser humano desde cedo para o vínculo com o meio ambiente, permitindo assim que perceba e receba os cuidados que a mãe lhe proporciona.
Para nossa compreensão não é difícil reconhecer que um recém-nascido desconhece o mundo ou qualquer existência que não seja ele próprio (condição essencial da mente de onipotência), muito embora sequer haja na mente, ainda intacta de cultura e sociedade, uma noção de si-mesma (eu) diferenciando-se de um não-si-mesma (não-eu). Podemos supor, então, que ao início da vida a criança vivencia os cuidados maternos como um prolongamento de si (continuidade existencial). Vai-se aos poucos formando um “débil núcleo de self infantil”.
Encontrando responsividade em um bom objeto cuidador que atende satisfatoriamente às demandas narcísicas e ilusoriamente onipotentes da mente sem seu estado infante, o processo de construção e consolidação do self será gerado em bases onde se edificará o sentimento de auto-confiança e auto-estima que, por sua vez, embasarão o que chamaremos mais adiante de assertividade e autonomia.
Como bem destacam Winnicott, Erickson, Mahler, Kohut entre outros, o núcleo emocional da auto-estima na mente de qualquer pessoa vai depender fundamentalmente das respostas empáticas do objeto cuidador (ambiente sustentador que no início da vida é para a criança a mãe enquanto funcionalidade).
Desse modo. Pode-se considerar que em grande parte o destino do self é marcado indelevelmente por suas primeiras experiências somato-emocionais com a pessoa (ou pessoas) que lhe cuida. Tais respostas empáticas às necessidades bio-psíquicas do infante ecoam na mente rudimentar em formação, propiciando assim a construção de um self e de uma auto-imagem mais autêntica e mais auto-confiante.
Coloquemos ainda a questão agora em outras palavras ou termos.
O self de qualquer pessoa começa a se desenvolver através de uma outra pessoa, isto é, através do objeto cuidador (mãe). A mãe, assim, ao se colocar disponível ao seu filho ainda bebê dá a ele condições para que, por meio do próprio contato com o corpo materno, inicie seu ingresso no mundo que, de fato, é um “lugar de muitos”. Desse modo podemos afirmar que o self é resultado e fruto do encontro, aliás, de muitos e vários encontros ao longo da vida: do primordial e primevo (com a mãe) aos mais contemporâneos e atuais (com objetos significativos do presente da mente amadurecida). Contudo, voltemos ao primeiro encontro (primeiro objeto) pelo qual e através do qual a mente primitiva vai construindo o self dentro de si.
A mãe é considerada o primeiro espelho para a mente, ou seja, do seu olhar e gesto o bebê é como que re-apresentado a si mesmo pela mãe que lhe cuida. Temos aqui o nível mais basal e primitivo do self: suas raízes. É por demais importante e vital ao self o sentido e sentimento de continuidade de si mesmo. Tal sentimento interno de continuidade, advindo principalmente pelas experiências significativas de sustentação materna, propicia o sentido de totalidade sem o qual vivenciaríamos a nós mesmos como um amontoado de partes e fragmentos, como se não fossemos nós ao longo do tempo (um sentimento impreciso e vago de vazio existencial e de auto-estranheza - como se um self fraturado).
Claro que sabemos que é através dos outros que a criança desde pequena vai adquirindo os códigos sociais da cultura e ambiente social a que pertence, bem como a auto-representação baseada numa totalidade de si mesma. Os cuidados dos primeiros cuidadores darão à mente em formação não somente um registro biológico, mas igualmente um registro afetivo e uma estética impregnada das características do grupo social em que habita a criança em seu desenvolvimento bio-psico-social. Gosto – e aqui compartilho – da feliz expressão construída por Gilberto Safra (A Transmissão do Self no Grupo Familiar, Revista Interações - Vol. III - nº 6 - jul/dez/1998): “O self é ser e fazer . O ser se dá na quietude, no silêncio do encontro. O fazer acontece no movimento do indivíduo em direção ao mundo”.
Enfim, por tudo até agora aqui descrito, aceitamos a idéia de que representação de si-próprio de alguém se faz na relação da mente infantil (bebê) com a mente adulta de seu cuidador (mãe). É por isto a célebre frase de Winnicott: “não existe bebê sem mãe”. Vejamos, portanto, embora sucintamente, a importância fundamental do objeto cuidador na formação do self que, dessa maneira, se formará a partir da internalização dos chamados “objetos arcaicos do self”.
Para Kohut são dois os objetos arcaicos do self, a saber: o objeto do self grandioso e a imago parental idealizada. E o que esse dois termos querem dizer? Primeiro vejamos o objeto do self grandioso e, mais precisamente, o que significa o self grandioso.
Segundo Kohut a mente primitivamente falando é onipotente e, por isso mesmo, grandiosa. O self rudimentar (ou se preferirem o self embrionário) que inicia seu desenvolvimento tão logo se nasce e o ego como instância ainda não formada vão estabelecendo suas primeiras relações objetais. A mente primariamente infantil (e também porque não dizer que ao longo de toda a sua existência, embora com bem menos fantasia dominante) é narcisicamente exibicionista se acredita ilusoriamente tanto ideal quanto passível de admiração por parte do objeto que lhe cuida. E se realmente o self rudimentar encontra na sua mãe alguém que lhe admira, admira o brilho exibicionista de seu pequeno filho, ela assim refletirá como um espelho a necessária ilusão narcísica que toda a mente em seu estado bruto e puro tem.
A mente em sua forma e funcionamento originários embora se acredite onipotente (e portanto auto-suficiente e perfeita), de fato ela (o bebê) não o é. E assim aos poucos a mente vai sendo invadida pela realidade, isto é, começa seu trajeto de ingresso no mundo compartilhado e, para isto, necessita ir diminuindo de tamanho e importância (menos onipotência). A mente vai, processualmente, abandonando a sensação de segurança plena (perfeição narcísica), mas isto ela não o faz sem antes “lutar” com vistas à manutenção de sua “visão” narsicista. Isto quer dizer, pois, que a mente tentará com todas suas forças (fantasia x realidade) manter a ilusão de perfectude.
Dessa maneira ela construirá uma imagem de si mesma grandiosa onde atribuirá a se tudo que há de bom e perfeito (self grandioso).
A mente humana necessita da grandiosidade e dela, talvez, nunca se livre totalmente. Ao longo de toda a existência haverá em todos nós resquícios da grandiosidade narcisista da mente primitiva. Ou como diz o poeta Fernando Pessoa: “o homem fatal, afinal, existe nos sonhos próprios de todos os homens vulgares”.
A grandiosidade que antes a mente se achava ser e depois ser qualidade do objeto que lhe cuida geram na mente mais amadurecida as ambições e metas (resultado do self grandioso), bem como os ideais (resultado da imago parental idealizada). Não custa nada aqui lembrar – na altura do presente texto – o que explicitou a psicanalista Margaret Mahler ao destacar ao longo de sua obra que a onipotência não é em si somente uma fantasia ou desejo inconsciente, mas sim um processo natural. E é nesse processo natural do desenvolvimento psíquico humano que abaixo sintetizo a questão.
Sem objeto (selfobject, no linguajar de Kohut) seria impossível à mente humana se estruturar. O próprio Kohut é feliz em utilizar a seguinte analogia: da mesma maneira que o corpo necessita de uma atmosfera com oxigênio para sobreviver, o self nascente de um bebê para também sobreviver (prefiro o termo desenvolver) necessita de um meio ambiente que contenha selfobjetos, e que estes respondam empaticamente às suas necessidades psicológicas. Assim, o desenvolvimento do self requer certos passos, que abaixo resumimos:
De início a mente primitiva (bebê) encontra-se fusionada com o objeto (selfobjeto). Como o bebê é de nascença desaparelhado para exercer suas funções básicas o objeto desempenha por ele a funções que lhes são ainda inatingíveis. Neste sentido podemos dizer que ao início não se há de falar em um self estruturado, mas sim de um núcleo de self (self rudimentar). A estruturação de um self é um longo caminhar. O objeto quando começa a ser percebido pelo self (separado e diferenciado) é ele então percebido de maneira especular e idealizada. O O selfobjeto especular exerce a função de espelhar a grandiosidade que o bebê se acredita ter e assim atende à necessidade primária, vital e básica que toda a mente humana tem de se sentir aceita, amada e valorizada (seja criança, bem como depois o adulto). A idealização, por sua vez, é uma espécie de projeção da grandiosidade mental (narcisismo) frente ao objeto. O selfobjeto idealizado então tem como função desenvolvimental exercer à outra das necessidades fundamentais humanas que é a de se fusionar com um objeto onipotente (vide, por exemplo, um jovem ou adulto apaixonado) com o intuito de se sentir completo, amparado e seguro. Por ser impossível ao selfobjeto ser perfeito com crê a mente, haverá ele de falhar. Se estas falhas ocorrerem com a capacidade da mente mais amadurecida, são elas o que chamamos de “falhas ótimas”. Tais falhas, aliás, são necessárias e estruturantes ao próprio amadurecimento da mente humana. Kohut, inclusive, destacou é dessa forma que a mente vivencia o que chamou de “frustração ótima”. A frustração ótima resulta numa retirada da catexia objetal transformando-se (do ponto de vista da economia psíquica) em estrutura do self. A função antes exercida pelo selfobjeto, agora internalizado, transforma-se no self em uma estrutura própria capaz de dar assistência assistir a si mesmo (o self se formar a partir das internalizações dos objetos arcaicos do self). Para quem desejar melhor aprofundamento do assunto, sugiro buscar na obra de Kohut o conceito por ele desenvolvido de “internalização transmutadora”.
Pelo tudo acima exposto, não nos fica difícil então afirmar que embora sejam feridas fortes ao narcisismo humano natural os golpes que a mente sofrerá em relação a sua grandiosidade inata versus a realidade da vida, o olhar orgulhoso dos pais nos deixará viva a onipotência original que em cada um será conservado como um núcleo de autoconfiança e segurança interna. A valorização que em nós gera o valor que nos atribuem nossos pais (primeiros objetos) sustentará nossa auto-estima por toda a vida. Por outro lado, pessoas com estruturação de um self carente em suas necessidades básicas e fundamentais (self deficitário) possuem, assim, uma necessidade quase desesperadora de encontras nas outras pessoas respostas que plhe possibilitem a manutenção de um melhor senso de bem-estar. Seja, portanto, um self bem desenvolvido e estruturado, seja um self deficitário, nossas necessidades narcísicas – como bem diz Kohut – persistem por toda a vida nos acompanhando o desenvolvimento no âmbito do amor objetal. Ou como escreve Gabbard (Psiquiatria Psicodinâmica, Artmed, 1998), “ao longo da vida, todos nós necessitamos de respostas empáticas e confirmatórias dos outros a fim de manter nossa auto-estima”.
Se somos realmente como escreveu o poeta inglês Wordworth ao dizer que “o menino é o pai do homem”, se somos realmente construídos em nossas imagens de nós mesmos pelas imagens que os outros nos outorgaram e pelas nossas experiências objetivas e subjetivas com nossos objetos significativos, isso não significa afirmar, por sua vez, que somos herdeiros passivos de nosso passado e por isto somos imutáveis depois de prontos. De antemão lembremos que nunca estaremos prontos (não falo de amadurecimento como um ponto de chegada, mas como um contínuo e interminável gerúndio), e que muitas das falhas, fragilidades e debilidades na coesão do self são ainda passíveis de uma espécie de reparação. Continuaremos ao longo de nossas vidas mantendo relações objetais significativas e com elas novas experiências emocionais, podendo algumas delas ter um caráter corretivo, A deficiência primária no si-próprio pode obter ajuda em novas estruturas compensatórias através, por exemplo, de uma experiência relacional psicoterapêutica satisfatória e funcional, onde a elaboração psíquica de tais deficiências e a internalização transmutadora do objeto-terapeuta podem compensar de maneira eficaz e suficiente a estrutura anteriormente deficitária ou comprometida, gerando assim numa espécie de “reabilitação funcional” alcançada graças a um melhor domínio e compreensão cognitivo e afetivo de si mesmo e de suas relações objetais históricas e contemporâneas. Haverei aqui de concordar com Kohut mais uma vez quando ele diz que a coesão do self reside na nova capacidade da pessoa para discernir e procurar em seu entorno real selfobjetos adequados. Quanto mais conhecemos a dinâmica do nosso self mais teremos a possibilidade de estabelecer relações empáticas com os objetos da vida atual, ao invés de procurarmos neles objetos passados perdidos ou idealizados. Por meio de relações empáticas pertinentes e adequadas, melhora-se a auto-estima a sensação de contuinidade do self no tempo e no espaço.
Para concluir remeterei a célebre frase de Sartre quando disse que “não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço com o que fizeram de mim”. Dele discordo (embora entenda o sentido de sua colocação) quando afirma que não importa o que fizeram de nós, pelo contrário, importa e muito, mas o que importa mais mesmo é o que estamos fazendo com o que fizeram de nós. Compreendo melhor cognitiva e emocionalmente o que fizeram de nós, podemos ser mais livres e mais responsáveis com a nossa herança vivencial e assim ser mais nós mesmos (verdadeiro self) em busca de uma felicidade possível e não utópica, mais pertinente e adequada tanto as nossas mais autênticas potencialidades quanto as das demais pessoas que amamos, buscamos amar, podemos amar, somos amados ou desejamos amar.
Não é porque hoje não somos mais bebês que deixamos de ter a necessidade empática de ser queridos e de amar a quem nos é querido. Mas também não é porque manteremos sempre tais necessidades humanas que tenhamos que viver, sentir e agir como um bebê em um corpo de gente grande. É necessário assim viver na inter-relação das deficiências primárias com as estruturas compensatórias possíveis.